Santa Teresa

Well, voltando a flanar por botecos e balcões, dia desses fui rodar com sol ameno por Santa Teresa, no Rio, pelos paralelepípedos que já viram passar Amy Winehouse e Mick Jagger, para citar alguns. Deixei o balcão do Bar Panamá, em Copacabana, passei pela Lapa e cheguei ao Bar do Mineiro, na Rua Paschoal Carlos Magno, mas na porta, como que tocado pelo brisa, mudei o projeto. Como um sopro nos ouvidos veio uma ideia: que tal conhecer Armazém São Thiago, na Rua Áurea? “Sim, claro”, disseram em uníssono todos os meus sentidos.

No Cine Santa, ali perto, me informaram que para chegar à rua era só descer a Paschoal Carlos Magno, virar à direita, depois à esquerda (se bem me lembro) e à esquerda novamente. Também conhecido como Bar do Gomez, do espanhol José Gomez Cantorna, o Armazém São Thiago fica em um prédio de 1919 reformado e teve entre os fregueses o lendário britânico Ronnie Biggs, o do assalto ao trem pagador, que gravou com o Sex Pistols e faleceu em dezembro de 2013, aos 84 anos. Ele escolheu o Rio para morar no início da década de 1970 e entre 1984 e 2001 fez de Santa Teresa seu aconchego.

A foto da fechada que ilustra este texto não reflete exatamente o que é o bar. Nossas escusas. É bem melhor (www.armazemsaothiago.com.br/historia). Nas paredes altas de tijolo aparente em prateleiras que lembram estantes de bibliotecas ficam as garrafas de variados destilados, nacionais e importados. Da cozinha saem sanduíches e porções, como a de costelinha de porco, croquetes e até amendoim com casca. Para beber, cervejas nacionais, além de Quilmes, Norteña e a belga Leffe, e vinhos argentinos e chilenos. Lugar agradável para bebericar e deixar rolar conversa, tentando “cortes epistemológicos”, como diria Fernando Barros. Na mesma “perspectiva” que das mesas Biggs teve do lugar.

Dizem que Biggs em Santa Teresa frequentava também a Mercearia do Esteves, mas esta fica para o próximo passeio. Pretexto para voltar a Santa Teresa.

   Por: Carlos Ferreira Lima

Roberto Luna

Roberto Luna

“Eu sei que vocês vão dizer que é tudo mentira, que não pode ser.” Quando disseram que Roberto Luna foi visto flanando pelos lados do Horto Florestal, fez lembrar os primeiros acordes de Molambo, que ele mesmo compôs. Mas é tudo verdade. Luna costuma aparecer como quem não quer nada, na elegância dos seus 80 e poucos anos, na Padaria Algarve, para pedir um café ao Marrom ou ao Adailton. Por falar em Molambo, para quem não se lembra, foi tema da minissérie ‘Hilda Furacão’, na TV Globo. Ele também fez uma ponta no filme ‘O Bandido da Luz Vermelha’, de 1968, de Rogério Sganzerla. Interpreta Lucho Gatica no filme.

Pois ele, que embalou noites no Vou Vivendo, bar que existiu em Pinheiros, agora, às quintas-feiras, desce as ladeiras do Mandaqui rumo ao Quintal Brasil (Rua Doutor César, 768, Santana, tel.: 2973-8811) para soltar a voz ao lado de Edith Veiga. E dá-lhe ‘Nunca’ e ‘Vingança’, de Lupicínio Rodrigues; ‘Castigo’, de Dolores Duran; ‘Por causa de você’, de Tom Jobim e Dolores Duran; o tango ‘El día que me quieras’, de Carlos Gardel e Alfredo Le Pêra, e por aí vai.

Roberto LunaLuna nasceu em 1º de dezembro de 1929, em Serraria, no Brejo Paraibano, com o nome de Valdemar Farias, e cresceu em Campina Grande, onde fez os primeiros estudos. Aos 16, mudou-se com a família para o Rio. Consta que foi no mesmo navio que transportou Severino Araújo e a Orquestra Tabajara. Foi morar em Nova Iguaçu, onde conseguiu um emprego em um serviço de auto-falante e acabou conhecendo gente importante do mundo artístico, entre eles o compositor Assis Valente, considerado também o melhor protético do Rio (Luna acabou aprendendo a profissão, mas não exerceu). Preferiu trabalhar em teatro de revista e estudou com o diretor Ziembinsky. Por volta de 1948 apresentava-se como crooner em dancings e boates do Rio. Foi o locutor Afrânio Rodrigues quem lhe deu o nome artístico de Roberto Luna.
Roberto LunaEm 1951 estreou na Rádio Guanabara, atuando logo depois na Globo, na Mayrink Veiga e na Nacional. No ano seguinte gravou seu primeiro disco, com ‘Por quanto tempo’ e ‘Linda’, na Gravadora Star’. Lançou, para o Carnaval de 1953, o samba ‘Jurema’ e a marcha ‘Deixa-me em paz’, na Copacabana. Luna tornou-se um astro do rádio e dos palcos, cantando músicas românticas, principalmente boleros e tangos, competindo com o chileno Lucho Gatica e o mexicano Pedro Infante. O auge no disco e nos palcos foi de 1955 a 1965. Depois, vieram o rock’n roll e outros ritmos e Luna caiu na noite, como bolerista convicto, cantando ‘Relógio’, ‘História de um amor’, ‘Que murmurem’, ‘Wilma’, só para lembrar parte de seu imenso repertório.

Flickr – Cervejarium

’Em continuação à primeira conversa e em homenagem a Paulo Mendes Campos, reparto com os amigos o petisco abaixo, tirado de ‘Os bares morrem numa quarta-feira (1980, Círculo do Livro, pág. 221)’

Bolinho de Feijão

Uma vez, ao sair dum labirinto burocrático, psiquicamente entorpecido, reparei que eram onze horas de manhã limpa e amena. Suspirei para a mulher que estava a meu lado: Que pena!

Que pena, sim, pois é bem ridículo renascer às onze horas de manhã limpa e amena, e não existir um só antro da cidade no qual uma alma leve possa comer um bolinho de feijão! (nota da edição: em São Paulo, desconheço, mas no Rio hoje em dia tem um saborosíssimo Bolinho de Feijoada, ganhador de prêmios, no Aconchego Carioca, Rua Barão de Iguatemi, 379, Pça. da Bandeira, tel.: (21) 2273-1035, das 12h/0h, dom. até 18h; fecha seg.; mas voltemos ao texto). É uma das contradições da civilização! Intolerável que uma cidade devore oceanos de peixes, rebanhos de bifes, enxurradas de cereais e hortaliças, sem poder ofertar ao consumidor um pratinho de bolinhos de feijão. Fazendo minhas as palavras sombrias de um russo, no banho de luz da Praça Marechal Âncora, ameacei a humanidade: Mundo louco, feliz em tua loucura, o teu despertar será terrível! Ler Mais >>

Bar do Zé – Um escritor mineiro que já foi mais bem lembrado, chamado Paulo Mendes Campos, deixou registrado em livro homenagens a esses lugares que chamamos de bar, em que as pessoas aparecem sem ser convidadas e podem se ver ou conversar sem se conhecerem, sem que ninguém se oponha à entrada ou saída de ninguém. O mundo, por sinal, segundo ele, foi o primeiro bar, quando se encontraram duas criaturas desconhecidas e a mulher, buscando comunicação, ofereceu ao homem uma fruta. Foi o primeiro ponto de encontro. O Bar do Zé, no Tremembé, é desses pontos de encontro. Reúne amigos, casais, jovens e veteranos, gente que bebe e se entende, e que continuará se entendendo. O Zé e os filhos Fabiano e Tiago, atendendo com cortesia, cerveja e cachaça mineira, e a mulher Cristina, preparando petiscos de primeira, sabem o que é isso.

por Carlos Ferreira Lima